Entrevista | DIOGO VIEGAS por Paulo Brighenti


















@diogomagroviegas




O quotidiano está presente na tua prática artística?

Sim. Mesmo quando não estou no estúdio a trabalhar a minha cabeça está sempre a produzir algo. Posso passar uma tarde só a caminhar e a pensar e a dialogar comigo, a observar o que está à minha volta. E é isso que eu procuro: saber que não pertenço só a um estúdio onde trabalho; há um mundo inteiro que não deve ser excluído. Também encontro essa satisfação nos livros, em coisas que podem não estar relacionadas com arte, e acho importante dizer isto, porque a arte em si não está relacionada com arte, mas com tudo o resto que se lhe pode associar.


Como encontras, escolhes os materiais das esculturas?

Por vezes encontro na rua objetos que me fascinam, que têm um formato ou uma cor ou uma textura peculiar. Quando saio à rua levo sempre uma mochila para o caso de ter um desses encontros, mas nunca vou com o propósito de encontrar. São só acasos. Em outras ocasiões procuro deliberadamente e é nessas alturas que costumo ir a onde os objetos se encontram, como lojas, megastores ou armazéns... Portanto, deambulo um pouco por esses dois mundos, o que quer ser encontrado e o que foi descartado. Mas onde quer que vá, o que vou encontrar é sempre um achado.


A linha é permanente no teu trabalho: desenha, define contornos, ata, cose, encerra volumes dentro de superfícies/peles.

Desenha? Prende? Fecha ou abre caminhos?

Eu percebi que a linha pode ser funcional. Ao desenhar uma linha no papel não estou só dar-lhe uma existência, estou a dar-lhe uma função. Eu quero que essa linha, que estou a criar, represente a imagem que lhe tenho associada. O mesmo pode acontecer tridimensionalmente, mas a diferença é que desta vez já não estou a criar a linha, estou a recriá-la. No final, ambas as linhas são também achados: a linha que desenho no papel vai ser diferente da imagem que tinha pensado, e aquele cordel que iria recriar, afinal há um outro que resulta melhor. Por isso, eu diria que a linha pode abrir caminhos se quiser que ela seja contínua... Dizem que há que saber parar, e com razão; mas também acho que há que saber não parar.


O tempo conta no fazer? E na construção de sentido?

Sem dúvida. Penso cada vez mais que o tempo está interligado com olhar e o gesto. O olhar deteta e o gesto atua, sempre foi assim. Tanto um como outro são os que melhor preservam a memória no fazer. Quanto mais tempo dedicar a uma obra, melhor é a minha relação com ela, melhor é o diálogo entre nós. Vou criando e vou conhecendo-a e socorrendo-a do que ela necessita. Sem tempo não há ocasiões de diálogo nem espaço para tomar decisões.


Os materiais que usas nos últimos desenhos são pastosos, são lentos, desenhas com técnicas de transferência, não riscas diretamente na superfície da folha onde o teu desenho “aparece”. Qual é o propósito desta “distância” entre ti e os desenhos que desenhas?

Não acho que haja um propósito. Comecei a usar técnicas de transferência porque percebi que devia ser assim. Há quem desenhe com lápis, há quem desenhe com o corpo, e há quem desenhe sem tocar diretamente. Mas é sempre a obra que decide a distância porque, tal como em tudo, a essência de uma dada coisa exige uma abordagem própria. E essa abordagem tem de se comunicar com a descoberta. Às vezes é só um acidente. Tento de uma maneira e resulta. Tenho usado pastel de óleo e, agora ultimamente, óleo em barra. É um material que obedece bem à passagem de uma superfície para outra. Só transfere o que eu quero que transfira. Isso dá-me algum controlo sobre o desenho, mas também acho que é um material agressivo que decide como quer ficar. E por isso, o resultado pode surgir de várias maneiras. Gosto desse efeito de marca que ficou registada, como se fosse um vestígio de algo maior. E acho que pode ter inúmeras possibilidades.


O teu corpo atua, executa? Está presente? Intervém? Também és corpo do trabalho?

Sim. Tal como disse anteriormente, o artista deve expandir-se para além do seu atelier. E decidi que devia criar um episódio que pusesse à prova o que é ficção e o que é real. É um evento que aconteceu mesmo, e está registado, mas que, apesar disso, provoca dúvidas em relação ao que se está a ver. Na verdade, é só isso que me interessa. Mas o espaço em que decidi intervir nunca esteve reservado para mim. É diferente de ir para o estúdio trabalhar e saber que lá estou bem. Neste caso, é uma situação em flagrante. Sou um invasor de um sítio que não é meu, e tento relacionar-me com aquele espaço de uma forma pouco convencional.


A escala dos teus trabalhos é ficcionada ou é real?

Depende do que se considera um protótipo de um trabalho acabado. Eu faço questão de pensar que podem ser ambos: convencionalmente ficção e realidade situam-se em polos opostos, mas, para mim, completam-se. Uma escultura não é menos real que a sua possibilidade numa outra escala. A ficção encontra-se quando não há forma de manobrar o inevitável, ou seja, quando se encontra a escala que a obra pede e tudo o resto é fantasia.




























1. Diogo Viegas

"Autorretrato na serra", 2020

Impressão a jato de tinta

s/d


2. Diogo Viegas

"Raiz", 2021

Técnica mista sobre papel

s/d



* Esta entrevista foi realizada em Fevereiro de 2021. A DUPLEX | Artists in Residence e o Diogo Viegas agradecem a generosa disponibilidade de Paulo Brighenti para a realização da presente entrevista.

Captura de ecrã 2019-09-07, às 13.36.47.
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