Entrevista | FERNANDO MOLETTA por Paula König e Gabriel Ribeiro

















@fernandomoletta

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PK: Enquanto explorava o teu trabalho online, várias ideias vieram à minha mente. Para mim, existe uma espécie de intermediação entre o conteúdo e a forma com que lidas, que parece tangível e evasiva ao mesmo tempo. Através da combinação fragmentada de imagens, textos e outras matérias-primas, em formato digital ou físico, as tuas instalações convidam a desenvolver associações e a reposicionar-nos (face a elas). Podes elaborar um pouco sobre a maneira como lidas com o engajamento entre o conteúdo por um lado e a forma/aparência por outro?

Atualmente tenho pensado muito sobre imagens, principalmente através da forma como as encaramos a partir da massificação de conteúdo imagético das redes sociais. Tenho pensado que ao mesmo tempo em que há imagens fortes, cheias de significado e conteúdo, há também dispositivos que não nos permitem memoriza-las. Sinto que a partir do momento em que eu desliguei meu celular, já não me recordo do que eu acabei de ver. Fico imaginando a figura de um monstro temível faminto por imagens que ele nem sequer mastiga com cuidado.

Nesse sentido acho que há muito mais dificuldade para que o trabalho de um artista tenha certa perenidade. Sinto um pouco isso no meu trabalho por ele estar sempre permeável por vários meios, ou seja, penso que há uma diluição formal. Sendo assim tenho utilizado o conceito e certas imagens como iscas, como em um jogo de adivinhação no qual devo soltar as pistas. Acho que ao brincar com a curiosidade ou com a intromissão é possível criar um relacionamento mais pessoal com o interlocutor e assim fixar-se em algum ponto da sua memória afetiva.


PK: Pensando em Hannah Arendt, trabalho é um tópico da tua prática. Por isso questiono-me sobre a relação entre o processo de trabalho e o estado final das tuas obras. Como começas e como terminas? Em que medida o teu processo de trabalho segue um plano traçado anteriormente? E de que forma a divulgação do teu processo de trabalho passa a fazer parte da própria obra de arte?

Sim, de fato trabalho é um termo que eu gosto muito de pensar sobre, mas mesmo assim penso que muitas vezes fui preso na própria armadilha que eu achava que poderia me esquivar. A maioria dos meus trabalhos surgem primeiramente através de um conceito a ser estudado e explorado, ou então a partir de uma proposta específica feita a partir de um tema. Mas imediatamente me vem mil problemas na cabeça de como formalizar tal coisa, muito por uma maldição da minha formação de arquiteto acredito, e então fico preso num looping por um bom tempo. Acredito que saio deste buraco negro quando tenho a certeza de que a materialização dele será bem executada a partir de tal método empregado.

Por fim, muitas das vezes, nós artistas jovens não temos a oportunidade de mostrar o trabalho de arte devidamente como imaginávamos, e talvez a internet ajude a atingir um público maior. Porém aí está a armadilha, pois ao delegar a si uma tarefa que muitas vezes é feita por outros agentes da arte, entramos em uma perspetiva da auto-cobrança, gerando desconforto e desanimo por não atingirmos o que projetamos inicialmente.


PK: Há́ a citação de Mark Fisher "É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo" que ficou gravada na minha memória enquanto navegava pelo teu site. Gostava de saber se já ouviste falar de Donna Haraway, uma americana‚ pós-modernista e feminista. Ela descreve a necessidade de imaginação, criatividade e utopia para ter uma ideia sobre o que significa enfrentar um futuro incerto. Nessa ideia de um futuro incerto, há́ também a formulação de Anna Tsing de “Vivendo nas ruínas“ como uma descrição da condição da Terra e do status da humanidade em seu interior, que me veio À memória enquanto lia sobre a dimensão espacial e arquitetónica do teu trabalho, bem como quando mencionas o andar como parte da tua prática (assim, o caminhar, mesmo não sendo uma construção física de um espaço, implica uma transformação do lugar e dos seus significados). No entanto, Haraway usa a ficção científica e a narrativa para explorar as suas questões, enquanto aponta a importância do ativismo reativo para escapar e superar as ideias modernas de crescimento sem fim, etc. Eu li num dos teus textos a descrição de "obras nos ajudam a compreender este presente incerto e caótico". Estou interessada nessa ideia do impacto artístico na sociedade. Pergunto-me de que maneira verias uma relação entre o teu trabalho e ideias de ativismo - de uma noção documental ou crítica. Onde colocarias o teu trabalho entre esses termos ou talvez outros? E talvez esse seja também o momento em que o termo “trabalho” de Hannah Arendt entra. Adoraria saber um pouco sobre a tua ideia de prática artística como um possível agente de transformação nas sociedades. Ou, como definirias as possibilidades e estratégias para uma contribuição da arte nos processos de transformação?

É um momento complexo para falar sobre isso. Para ser sincero, sinto-me cansado antes mesmo de começar a pensar no assunto.

Enquanto escrevo, enfrentamos o pior momento da pandemia Covid-19 em Portugal, totalmente trancados no segundo lockdown, enquanto a cultura sofre sem qualquer apoio. A Itália, por outro lado, mergulha mais uma vez na falácia do governo tecnocrático, que só alimentará os fantasmas fascistas da extrema direita populista. Ao mesmo tempo, no Brasil, um governo genocida ri da população enquanto falta oxigênio em vários hospitais; porém respirar já não era mais possível para muitas travestis, transexuais, negros, e várias minorias marginalizadas oprimidas pelo capital dominante.

Este ato, o respirar, totalmente involuntário, é uma das alternativas revolucionárias do filósofo italiano Franco Bifo Berardi. Respirar em outro ritmo, que não aquele do capital financeiro. Irônico pensar nisso enquanto vivemos em uma pandemia que atinge o sistema respiratório. Ou seja, parece que não há saída.

Pensando nisso, escrevi recentemente no diálogo final do meu videoarte “O mito do capital humano” a seguinte frase: E no final, somos traídos por nossas fantasias ou por nossos medos? Admito que sei pouco, mas bem lembrado por você, talvez a ficção científica de Donna Haraway ou o estudo biológico de comunidades de cogumelos de Anna Tsing nos ajudem a reverter essa lógica perversa e cansativa que Hannah Arendt e Mark Fisher nos fizeram perceber.

No entanto, acredito que só o ativismo é capaz de transformação plural. Nesse sentido, é urgente posicionar-se, não apenas por meio de conceitos e formas artísticas, mas exercitando outro ritmo e, assim, respirando política.




GR: Um curto-circuito ocorre quando uma corrente elétrica com força acima do normal passa por um trecho com intensidade elevada, gerando um tipo de sobrecarga que resulta na falha ou queda deste mesmo circuito. Ao me deparar com os seus Dispositivos para uma nova agenda, é evidente o emprego de um léxico material que remete à realidade de um escritório. No entanto, a integridade dos materiais parece ter sofrido algum tipo de lapso...fios desencapados, estantes envergadas e inscrições de fórmulas matemáticas vacilantes me sugerem uma espécie de aftermath - ou consequência - de uma falha estrutural. Como você pensa a noção de sobrecarga dentro deste universo laboral? E como ela está refletida nas suas escolhas de objetos e a forma como são alterados ou manipulados?

Em algum momento das nossas vidas como artistas haveremos de responder a fatídica pergunta “O que é arte?”. Não sei se sei respondê-la, porém tenho certa percepção de que a arte só acontece mesmo a partir conversa, do olhar e das trocas entre quem está interessado nela própria.

Falo isso porque nesta pergunta acredito que você tenha adicionado certas camadas que nem eu mesmo tinha percebido nesta série de trabalhos. Comecei a desenvolvê-los já durante a pandemia do Covid-19, ao pensar que toda a crise que eu vinha estudando tinha passado de uma relação histórica para um momento real e tátil. Ou seja, os fracassos, as promessas por cumprir, os lapsos ideológicos, entre tantas outras situações do modernismo, já as encarava partir do presente como futuro incerto.

Então aquelas superfícies brancas, lisas, abstratas, isoladas do mundo - passavam a existir juntamente com cabos, os ruídos, as marcas e os desenhos, na tentativa de enxergar alguma feição mundana, mesmo que de maneira caótica, no sentido de fuga do atual momento orientado, instrumentalizado e sanitizado.

E partindo de uma “proposta” do livro Caos e poesia do filósofo italiano Franco Bifo Berardi, eu pretendia imaginar qual seria a nova linguagem que deveríamos comunicar enquanto proposta de um novo ritmo, ao imaginar que o atual já era perverso e inútil. Mas a partir da sua pergunta, me vem a percepção também de que inserido nesse sistema como um trabalhador, a crise já era a sobrecarga laboral, e o presente é a consequência de uma sequência de eventos desagradáveis, onde culminamos na maior delas, até agora.

Sendo assim, também penso que posso ter sido enganado, posso ter sido ingênuo. O que não invalida o trabalho em si, mas ajuda na compreensão de que a saída está mais longe do que imaginávamos e a luz no fim do túnel se torna cada vez menor. Porém isso não é uma declaração de concessão ou de derrota, mas sim de mais busca, pesquisa, luta e ativismo.


GR: Ainda dentro destas impressões de ritmos que podem ser continuados ou interrompidos, criados ou impostos, autênticos ou forjados: quais seriam as forças constituintes de uma “infraestrutura psíquica” capaz de resistir e combater os ritmos mecanizados? Esta infraestrutura ainda se apropria de alguma métrica que poderia ser reconhecida como um novo ritmo ou - por sua associação perigosa com a eficácia - dissolve a noção de ritmo por completo?

Relativo a estas questões me apoio muito no crítico cultural Mark Fisher. Em um artigo de 2013 chamado “Como matar um zumbi: elaborando estratégias para o fim do neoliberalismo”, ele afirma a necessidade de adotarmos ações indiretas, como por exemplo repensar a solidariedade. E nesse sentido sinto que por muitas vezes o meio artístico é o exato oposto de um modelo a ser seguido, porque tem se tornado cada vez mais tóxico, onde a competição entre os pares de torna cada vez mais nociva. E se pretendemos alguma mudança positiva, acredito que repensar este ambiente é necessidade primária.

Então esta interação que estamos tendo, é construtora de pontes, e deveria ser amplificada, por isso agradeço a iniciativa da Susana e da comunidade da Duplex na criação destas entrevistas, pois acredito que o diálogo é parte destas forças de resistência. Mas também poderíamos pensar em - cadência e compasso - como termos de ebulição, pois a música por mais impalpável que possa parecer, possui o poder da plasticidade, que é a resiliência, que mantém a memória de encontros passados, como um cuidado de alerta.


GR: No seu videoarte O mito do capital humano me lembro de uma parte onde há uma série de imagens de arquivo de camas e leitos. Além disso, as duas protagonistas do filme conversam sobre o passado e o futuro deitadas em uma cama, ambas em aparente estado de repouso físico

ou possível exaustão. A horizontalidade na escultura (mas não só), é frequentemente vista como uma característica negativa, uma espécie de redenção a gravidade, letargia ou desistência. Como você vê o papel do descanso ou do chamado downtime neste momento onde nossas vidas foram de certa forma interrompidas? Me parece que mesmo durante este momento de colapso, a produtividade continua a operar como sinônimo de virtuosidade ou excelência...

Comecei a pensar este filme antes do início pandemia, mas ele foi gravado durante. Ou seja, com certeza fui atravessado por esta cisão. Então estes corpos que poderiam estar enérgicos em posição de luta, tornaram-se apáticos e há pouca resistência. Penso que miseravelmente é este o espírito do tempo atual. Tenho me sentido assim pelo menos. São poucas as situações que me dão ânimo.

Mas como você bem nota, este estado letárgico não é sinônimo de descanso, pois o alarme do celular nos desperta, a sirene nos deixa atento e tantos outros barulhos ensurdecedores nos deixam sempre ativos. Até atualmente tem sido propagandeado a utilização do chamado ruído branco para melhorar o desempenho de trabalhadores porque disfarça o ruído do escritório. Não há situação mais contemporânea que essa?


GR: Em How Should We Live? todas estas inquietações parecem ser acessadas através de uma crítica mais direta ao modernismo e como a cidade é pensada, programada e construída sob a ótica modernista. Além de artista visual, você também é graduado em arquitetura e urbanismo. Hoje em dia, como é este diálogo? Se sente mais a questionar, combater ou potencializar as informações absorvidas durante a graduação?

Sim, como eu já havia citado acima, o fruto dessas inquietações é o modernismo, ou seja, minha pesquisa na arte surge da pesquisa na arquitetura e no urbanismo. Tenho muito apreço por esse principio porque lembro-me bem da ingenuidade que tínhamos. Achávamos que poderíamos facilmente transformar a realidade desoladora, os problemas sociais, habitacionais, etc.

Por muitas vezes a faculdade de arquitetura e urbanismo está fora da realidade, e quando tenta trazê-la, esquece que a política é o principal agente social. Atualmente sou muito mais cético, mas como atividade de um pisciano, tento sempre imaginar outros mundos possíveis. E quando esta imaginação retorna para o ceticismo percebo que somente o ativismo é capaz de mudança real.

Por isso vejo a necessidade de nós artistas, como agentes conectados com o público, afirmarmos as nossas posições políticas enfaticamente, seja através do próprio trabalho, do papo do dia a dia, e principalmente através do engajamento político.


GR: Em relação a sua experiência pessoal, como artista brasileiro e LGBTQIA+, no circuito artístico e académico em Portugal, como sente que a sua prática tem se comportado, ou não, no âmbito destes dois espaços?

Vivo há um ano em Portugal. O que já é um período curto para compreender certos circuitos e afetividades, e com a pandemia, as restrições todas e principalmente com o lockdown, eu tive pouco contato de comunidade. Claro que construí ótimas amizades, reencontrei outras tantas, e também a Duplex ajudou neste sentido. Mas no mestrado, por exemplo, tivemos muitas aulas no formato online, então conheci pouco de meus colegas, dividimos e trocamos somente o mínimo.

Mas apesar destas condições devo dizer que fui muito bem acolhido em Portugal, afetivamente e profissionalmente. E sobretudo sinto que é um país acolhedor para a comunidade LGBTQI+, porém sabemos bem que as garantias são sempre frágeis, então há de se estar sempre atento ao crescimento do saudosismo facista, pois fiquei assustado com a última eleição presidencial e nós, brasileiros, já vimos este filme. Espero que de alguma maneira a nossa catastrófica experiência política atual ajude como lição.














1. Fernando Moletta

"Dispositivos para uma nova agenda", 2020

Metal e parafusos

140 x 70 x 70 cm


2. Fernando Moletta

"O mito do capital humano", 2020

Videoarte

7'05'' | 16:4 | HD | Cor | Estéreo


3. Fernando Moletta

"s/título", 2020

Imagem digital


* Esta entrevista foi realizada em Fevereiro de 2021. A DUPLEX | Artists in Residence e o Fernando Moletta agradecem a generosa disponibilidade de Paula König e Gabriel Ribeiro para a realização da presente entrevista.

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