Entrevista | GABRIEL RIBEIRO por Fernando Moletta

















@gbrlrbr

www.gabrielribeiro.net




A fetichização da imagem é um assunto muito atual, tem-se falado muito disso. Percebo nos teus trabalhos um esforço de abstração em relação a imagem cotidiana, não somente através da própria visualidade da coisa, mas também através da materialidade, que muitas vezes nos engana do que é feito. Parece que seus trabalhos insistem para observarmos um outro universo, estou certo? Se sim, qual seria este meio?

Acredito que em todos os meus trabalhos existe uma vontade de arrastar a forma ou o material em si para um estado de instabilidade. Neste lugar, a opacidade, a turbidez e a incompletude são apresentadas como atributos capazes de desafiar primeiras impressões, abrindo espaço para especulação. Estes atributos frequentemente geram uma espécie de lapso semelhante a experiência ambígua na linguagem, quando nos sentimos traídos pelo sentido empírico a partir do confronto com uma outra possibilidade, que irrompe sem aviso prévio. Sinto que os meus trabalhos intencionalmente jogam com esta noção de imprecisão e tentam anima-la no âmbito material.

A minha tese de Mestrado acessa precisamente este estado escorregadio através de considerações fenomenológicas acerca da matéria viscosa, apanhando-a como um exemplo cabal de in-betweeness e indefinição. Nem sólida, nem líquida a matéria viscosa está suspensa num entre-estado que seduz, fascina e perturba o desejo. Quem nunca se viu enfeitiçado pela forma como o mel escorre de forma letárgica da colher meleira, antes de afundar novamente na própria homogeneidade? O visco é performático e imprevisível, e por isso é potencialmente traiçoeiro: ao mesmo tempo que escorre e escapa, é também pegajoso e aderente.

Em Vibrant Matter, a teorista política Jane Bennett se esforça para garantir esta agência ativa a matéria. Afinal de contas, a matéria assim como nós, é dotada de desejos por autonomia e arbítrio. A matéria vibra, contrai, expande, pulsa, resiste ou desiste. Por isso, há uma incompreensibilidade humana diante dos enigmas do mundo físico que prefiro não tentar solucionar. Não porque não quero, mas porque não consigo. Em ultima instância, é a própria matéria a responsável por revelar - ou não - seus próprios limites, intenções e mistérios.


Em suas obras há um uso de matérias-prima associadas ao plástico, ao silicone e ao metal. Ao mesmo tempo, lendo os textos dos seus trabalhos, e parte do sua imagibilidade, percebo um apreço muito grande por organismos vivos e pelo que é de fato natural. Como você enfrenta essa aparente contradição?

Na realidade, cada vez mais, tenho tentado dissolver as minhas impressões sobre o que é natural e o que viria a designar o seu antónimo...cultural, sintético, artificial? É difícil para mim pensar nesta oposição sem me contradizer. Se pensarmos num iPhone, por exemplo, ele é composto por 33g de ferro, 13g de silício e 7g de cromo, mais uma serie de elementos com menor incidência como o cobalto e o tungsténio. O ser humano é natural e por isso acho que a classificação de matérias primas que foram manipuladas por ele como produtos não-naturais, na verdade, só funciona para levar o homem a crer que ele é capaz de criar algo que está acima da natureza, qualquer coisa mais intencional, trabalhada ou primorosa. Portanto, prefiro me guiar pela mentalidade de que um cão-robô é tao natural quanto uma vitória-régia. São coisas (bem diferentes) que a natureza faz.


Ao falar sobre nossos próprios trabalhos enxergamos um ponto em comum que são as ideias da crise, da fadiga e da falha. No seu caso imediatamente me vem à mente as imagens das poças. Mas diferente de poças desprovidas de presença e estímulos, as suas nos chamam atenção. Há qualquer senso esperançoso ou fantasioso no seu cansaço?

Para mim, as poças tentam repensar aquilo que é frequentemente atribuído ao estado de estagnação. A estagnação no sentido material, assim como no sentido socio-comportamental, é comumente encarada como um acúmulo ocioso de energia, algo que complica um dinamismo produtivo. É um estado que supostamente fracassa em se desenvolver, avançar ou progredir. A poça, para mim, possibilita associações com a fadiga e com a desistência, através desta redenção horizontal a gravidade. Ela está no chão, parada e é de certa forma a representação física de uma fluidez interrompida. Na exposição Let Us Flop na Duplex, por exemplo, a poça escoa de tubulações infraestruturais que dialogam com o próprio espaço expositivo, como se sugerissem uma infiltração ou despejo. No entanto, no meu trabalho elas operam como um convite a aproximação, a imaginação... como se guardassem algum segredo sobre de onde vieram e para onde vão, contestando o estado de aparente finitude através destes estímulos especulativos.

Acredito ser por isso que também me interesso conceptualmente pelo pântano como um milieu não humano, que parece desprovido de dinamismo, mas na realidade comporta uma multitude vibrante de processos biológicos invisíveis. Há uma série de microogranismos que florescem e dependem precisamente deste estado de aparente paralisação, o que nos faz pensar que a sua designação inerte é relativa. Por isso, no sentido amplo, tenho pensado na noção de estagnação como um contraponto necessário à produtividade. Assim como a noção de doença institui inversamente a noção de saúde, sem marasmo, não saberíamos o que significa causar, criar ou produzir. Não saberíamos o que significa seguir em frente.


Posso estar viajando, mas desde que conheci a antropóloga Anna Tsing, e sendo um ser vivo neste momento único para toda uma geração e particularmente para a nossa geração brasileira, e também percebendo sua simpatia pelos temas da biologia, você enxergaria exemplos ou conceitos em comunidades de microorganismos, protozoários, plantas ou até mesmo na criptozoologia em que podemos nos apegar como forma de esperança e enfrentamento de crise?

Eu coincidentemente li Mushroom At The End of The World para um programa de seminários logo antes da expansão galopante do SARS-Cov-2 mas me vejo retornando ao livro com frequência no último ano. Me parece mais relevante do que nunca a forma como Tsing fala sobre uma precariedade ubíqua que circunscreve toda a existência humana. A precariedade não é um caso ou estado excecional, mas sim a nossa condição. Isso significa que tudo está em fluxo constante e que nada é de fato previsível se formos nos guiar pelo real sentido da palavra. Por isso, não há uma essência humana sólida, estável, impermeável e protegida. Somos e estamos suscetíveis.

As propriedades expansivas do próprio vírus que nos acomete neste momento podem oferecer material ou apresentar formatos para este tipo de análise. Existe, indiscutivelmente, um impulso homeostático na expansão do vírus, ou seja, da mesma forma que nós humanos estamos a lutar pela nossa sobrevivência, o vírus também o faz em simultâneo, com variados graus de sucesso ou fracasso. O que fica extremamente evidente é que no sentido fisiológico, o vírus sente, aprende e evolui, ao contrário de muitos governantes que lideram a batalha contra ele. Essa adaptabilidade é, neste momento, catastrófica para a raça humana, mas com o devido tempo pode ser apanhada como lição.


Ao falar de comunidade, também gostaria de saber sobre sua relação pessoal com seu trabalho artístico neste momento. Principalmente pensando no fato de você, como eu, ser um artista brasileiro, LGBTQI+, vivendo em Portugal, e empenhando-se em estar no circuito artístico. Como é para você lidar com estas vivencias e enfrentamentos?

É evidente que o circuito artístico em Portugal é não só exclusivo, mas também excludente. As vezes parece que existe uma espécie de acompanhamento de práticas já estabelecidas, ao invés de criar espaço para novas narrativas e pontos de vista dissidentes, o que acaba por gerar esta sensação de redundância. Sinto que é preciso combater esta redundância com projetos curatoriais mais corajosos, projetos que sejam resistentes a estes impulsos que procuram não gerar alarde ou desconforto. Acredito que estas provocações também seriam facilitadas pela existência de espaços de projeto fora do circuito de galerias, espaços que comportariam propostas menos estabelecidas, mas não menos importantes. Por isso tenho grande apreço por aquilo que se criou na Duplex.

Chegou a hora de cumprir a tarefa árdua de cutucar feridas, ao questionar os princípios e motivações destes circuitos. Apesar de me identificar como parte do movimento LGBTQIA+, reconheço que sendo um homem cis e branco, minha inserção nestes meios é facilitada. No entanto, acredito ser urgente a ocorrência de projetos que tenham ânimo para avançar através de práticas de escuta e que procurem criar um circuito com maior permeabilidade.





1. Gabriel Ribeiro

Microbes Must Have Parents!, 2020

Polyester resin, tablet stands

78cm x 65cm x 38cm


2. Gabriel Ribeiro

Beached, Blue, Bloated, 2019

Acetate sublimation on resin, galvanized iron, silicone

186cm x 5cm x 5cm


3. Gabriel Ribeiro

The Nice Phagocytes, 2020

Silicone, spirulina, glass

17cm x 13.5 cm x 6 cm

Fotografia: Bruno Lopes


4. Gabriel Ribeiro

The Nice Phagocytes, 2020

Silicone, spirulina, metal tubes, valves

Variable dimensions

Fotografia: Bruno Lopes


* Esta entrevista foi realizada em Março de 2021. A DUPLEX | Artists in Residence e o Gabriel Ribeiro agradecem a generosa disponibilidade de Fernando Moletta para a realização da presente entrevista.

Captura de ecrã 2019-09-07, às 13.36.47.