Entrevista | MONICA MINDELIS por Fábio Colaço


















www.monicamindelis.com




Olá Monica! Sei que nasceste em São Paulo, e que agora vives em Lisboa. Qual é a tua relação com as duas cidades, e como é que essa relação se reflete na tua prática artística?

São Paulo é onde nasci e cresci.

Portugal é a minha terra paterna.

São Paulo é uma cidade incrível e cansativa.

Lisboa é uma cidade maravilhosa e calma.

Eu prefiro a calmaria.

Em Lisboa sempre me senti em casa e sinto que continuo o meu percurso; um movimento natural.

São duas vivências em que uma precisa da outra para subsistir e, penso agora, que isso possa tocar na dualidade fundamental da vida, tema de reflexão de grande parte do meu trabalho, embora não tenha interesse que o meu trabalho se reduza às minhas vivências.

Sei que a maior parte dos teus trabalhos são pintura, no sentido convencional da palavra, no entanto, percepciono um carácter performativo em grande parte das tuas obras, estou certo?

Se pensarmos no processo, penso que sim. O movimento/envolvimento do corpo enquanto produzo sempre foi parte do meu trabalho, é muito importante como me coloco perante uma tela ou um papel.


No seguimento da pergunta anterior, qual a relação da tua obra com o corpo?

Há um antes e depois da minha gravidez. Antes, o movimento do corpo era fundamental e era expansivo. Durante a gravidez, era a força centrípeta que me movia. E depois da gravidez, começou a haver uma aproximação cada vez maior do corpo com tudo o que produzo.


A primeira obra que me chamou à atenção no teu conjunto de trabalhos mais recentes, foi uma série de esculturas com a forma de vários ninhos feitos através de uma rede de ráfia embebida em gesso. Qual é a importância do processo na tua obra?

O trabalho de que falas, "Todo ninho está condenado ao abandono” (foto), produzido em 2016, esteve na exposição mais recente na galeria NAVE sob a curadoria de Mercedes Cerón que viu nesse trabalho uma ligação com a minha produção atual.

Foi produzido quando senti a necessidade de construir objetos, a necessidade de agarrar o trabalho, de poder pegá-lo ao colo... era apenas o processo que me interessava.

Continua a ser assim. O mais importante para mim é o processo. Mesmo que no início não saiba o que estou a fazer, sei instintivamente que é preciso passar por aquele processo para chegar a alguns trabalhos. E há outras peças que, depois de produzidas e expostas, são destruídas porque já cumpriram o seu propósito.

Penso que a ideia de malha/rede esteve muito presente na exposição “Não acordes o Dragão”, na Galeria Nave. Fala-me um pouco da forma como relacionas o processo e as técnicas desenvolvidas na produção das obras com a dimensão conceptual que elas transportam.

O fio da malha tornou-se, literalmente, um fio condutor no meu trabalho. Teve início com a instalação “Todo ninho está condenado ao abandono”.

O uso da ráfia não foi por acaso. Depois de muitos experimentos com diversos materiais, foi com a ráfia que percebi que poderia resgatar afetos e ancestralidades - a malha traz a questão da alteridade e de não querer ver através ou de não querer ser visto. Evoca o que nos une (como uma rede) e a cultura popular de fazer com as mãos. A ráfia também está intimamente ligada ao candomblé, religiosidade afro-brasileira.


Para terminar, gostava de te agradecer pelo desafio que me propuseste, e deixar-te uma última pergunta: qual é a tua postura enquanto artista perante o momento de incerteza em que vivemos?

Então... devemos agradecer à Susana Rocha pelo desafio. E eu agradeço também a tua disponibilidade. A ambos agradeço a excelente oportunidade de reflexão. Quanto à tua pergunta... Será que muda assim tanto? Sem querer de forma alguma minimizar o que se está a passar, é sempre assim, a vida é incerta.

Tenho uma frase apontada no meu caderno, infelizmente já não me recordo nem encontro o autor, mas na qual enxergo verdade e diz: “A existência é um falhanço em si mesmo. Um acto falhado que tem tanto de milagre como de impossibilidade. O mundo é um erro, viver não é natural. É tudo um esforço para contrariar a inércia, sair da posição horizontal, encontrar um sentido nesse esforço e tentar tornar o erro do mundo mais suportável”.

A minha postura perante o que vivemos é a de estar atenta e continuar. O meu dever é continuar e continuar.




1. Monica Mindelis

"Todo o ninho está condenado ao abandono" (detalhe), 2016

Gesso e folha de ouro sobre ráfia costurada à mão

Dimensões variáveis


2. Atelier de Monica Mindelis, 2020



Outubro de 2021 >>> Exposição Individual - Sociedade Nacional de Belas Artes.



* Créditos fotográficos da primeira imagem: Teresa CG

** Esta entrevista foi realizada em Fevereiro de 2021. A DUPLEX | Artists in Residence e a Monica Mindelis agradecem a generosa disponibilidade de Fábio Colaço para a realização da presente entrevista.

Captura de ecrã 2019-09-07, às 13.36.47.
  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon