Entrevista | SUSANA ROCHA por Francisca Aires Mateus

















@susana.v.rocha

www.cargocollective.com/susanarocha




Olá Susana! O primeiro contacto que tive com o teu trabalho foi através da obra “Breaths’ Archive”. Este trabalho tem uma carga emocional muito forte, mas uma representação muito simples e poética tal como acontece com outros trabalhos desta altura. Será que nos podes falar um bocadinho do pensamento por trás da tua produção artística deste período? A “Breaths’ Archive” é uma instalação que iniciei em 2012, que consiste num conjunto de bolas insufláveis transparentes que servem de recetáculo de respirações de pessoas que me são importantes. Como os recetáculos não são absolutamente herméticos, as (potenciais últimas) respirações escapam lentamente, e o arquivo/instalação precisa de ser mantido, cuidado se preferires, numa ação de algum modo complementar ou até substitutiva do carinho que tenho às pessoas de quem gosto.

Nessa altura estava focada em questões em torno da mortalidade, porque nunca tinha vivido nenhuma experiência de luto - o que de resto continua a ser verdade e, invulgar, para alguém com mais de trinta anos.

A morte e a perda apresentavam-se como algo que antecipava ser de uma enormidade incontornável; e, embora as pudesse compreender racionalmente, emocionalmente apenas as podia ficcionar - o que de certo modo ainda as tornava mais assustadoras e presentes. Quando não tens uma ancora na realidade, não tens limites para o que podes imaginar... e isso nem sempre é bom. Será que concordas que os trabalhos dessa altura têm uma qualidade quase mística? Não te sei dizer... para mim têm, como todos os meus trabalhos, uma qualidade psicanalítica.

É através da minha prática que processo angústias (na expectativa de uma ligação com as angústias de outros). Não funciono de modo muito permeável ao misticismo. Nunca identifiquei em mim nenhum tipo de religiosidade ou sentido de divino. Vejo o mundo de um modo muito mais existencialista. Mais que qualidades místicas diria que têm qualidades, como apontaste, poéticas.

Sei que quando acabaste o mestrado fizeste duas residências artísticas em dois sítios muito distintos: Ólafsfjörður (Islândia) e Rio de Janeiro (Brasil). Que influência tiveram estas duas experiências tão distintas na tua prática artística?

Essas duas residências aconteceram no final de 2013. Entre uma residência e outra estive em Portugal poucas semanas. Foram experiências intensas, com uma influência grande na minha prática artística e na minha vida, mas que só posteriormente processei. Foram também radicalmente contrastantes.

No Rio de Janeiro experimentei uma cidade densamente povoada, vibrante, e num período de crise social que ficou marcado pelas manifestações Black Bloc. Estava inserida numa comunidade de artistas brasileiros, profundamente engajada com questões sociopolíticas, e pude assistir a uma militância que nunca assisti por cá. Simultaneamente, e apesar disso, vivia sozinha e estava condicionada por questões relativas à minha segurança, das quais estava ciente, mas que até então desconhecia. O contexto artístico brasileiro, pareceu-me ter um fulgor que na época não encontrava em Lisboa, com iniciativas independentes e com uma escala muito diferente. Foi uma alegria...!

Na Islândia, em particular em Ólafsfjörður, a experiência foi muito mais introspetiva, embora nada solitária. Estava numa aldeia com cerca de 500 habitantes, dos quais boa parte eram pescadores que estavam no mar e, quando regressei, os dias já tinham apenas 4 horas de luz diurna bastante ténue... estava rodeada de montanhas, gelo e neve e o contexto artístico era inexistente. Apesar disso vivia com mais duas artistas e estávamos em contacto permanente com todas as pessoas da aldeia que se dispunham a conhecer-nos. A Islândia é um lugar para o qual não tenho termo de comparação... Estranha e absolutamente deslumbrante. É um daqueles lugares que se instala dentro de nós – há de facto uma experiência de um lugar. Talvez seja, a propósito da tua pergunta anterior, o único lugar onde percebi o que pode ser o sentimento místico.

Tanto uma experiência quanto outra me ajudaram a perceber a minha realidade enquanto artista e o que cabia ou não na minha prática. Onde me encaixava, e mais importante que isso, o que não fazia sentido para mim. O contraste entre as duas experiências contribuiu para compreender como queria amadurecer o meu projeto artístico e – embora não o pudesse imaginar na altura –essas residências estão também na origem da vontade de fundar a Duplex. Esta pergunta é um bocadinho óbvia, mas acho que é inevitável... será que nos podes falar do cor-de-laranja? O laranja surge por identificar nele uma relação muito própria com a sinalização de perigo. É uma cor estridente, que incomoda e que permanece. Está presente em equipamentos urbanos, avisos luminosos, animais venenosos, ocasos... é para mim um símbolo de ansiedade. O preto (que uso muito mais) é, por oposição, uma sedução ao olhar. No entanto, prova de que o laranja causa o efeito de permanência que referia, é que me perguntes precisamente por ele.


Seguindo esta linha de perguntas curtas, como é que escolhes os nomes para os teus trabalhos? Sempre com grande sofrimento, claro...! (riso)

Ocasionalmente, lá há um título que surge antes da obra... Esses, genericamente, têm um carácter mais poético, como por exemplo “Dreams are minefields” ou “We all love a beautiful tragedy”. Quando me vejo na necessidade de escolher um título que não me surge naturalmente, costumam ser designações mais operativas que permitem sublinhar algum aspeto das obras que para mim é estrutural. São habitualmente palavras únicas como “Gap”, “Misfit”, “Pressure”... que servem também como pistas para ler as obras do meu ponto de vista.

Sei que quando começaste a desenvolver o teu projeto de doutoramento, mudaste o foco da tua pesquisa. O que é que incitou essa mudança? A certeza de que continuar a trabalhar sobre pulsões de morte e luto não era viável... por não ter delas uma experiência verdadeira e porque pressentia haver uma angústia, maior e sub-reptícia, que precisava de identificar... foi precisamente essa consciencialização, a par de uma série de acontecimentos pessoais, que me conduziu ao que genericamente chamamos de bloqueio criativo que, acabaria por desbloquear uma série de questões que alteraram significativamente a minha prática.

Para mim, acabou por ser um momento de charneira, duro mas produtivo, logo no início do doutoramento... O bom das crises é que são incrivelmente potenciadoras e, quando ultrapassadas, permitem uma sistematização maior de pensamento e intenções.

O núcleo das minhas inquietações não estava tanto na ideia de fim (morte) mas sobretudo na possibilidade do que lato senso designo de fracasso. E o fracasso é essencialmente sobre viver - ainda que exista um vínculo sempre indissociável com a morte, não fosse essa a condição humana...

Com essa redescoberta do núcleo fundamental do meu trabalho, veio também uma abordagem formalista que me afastou da pintura, e que me permitiu uma reconfiguração do modo como produzo e penso as obras. A minha formação pictórica continua sempre presente, mas o que faço passa por procurar um modo de materializar noções e experiências de fracasso – que mais não é do que um combate de forças contrastantes - através de uma linguagem quase sempre formalista, sem com isso existir uma perda de sentido poético.

Sentes que, com o fim do doutoramento chegaste à conclusão dessa nova investigação plástica ou é algo em que ainda trabalhas? Não. De modo nenhum. O fracasso e as questões que com ele se relacionam, como a ansiedade, a destruição, a dúvida, a disrupção, a melancolia, os impedimentos... continuam a ser o núcleo conceptual do que faço. E a sua tradução plástica é algo em que continuo a trabalhar; não é uma investigação fechada; se algum dia o for, exigirá um recomeço.

O curioso sobre o doutoramento - penso que é assim para quase todos os artistas que o fazem - é que embora seja um período muito estimulante e rico na consolidação teórica e conceptual da nossa produção - o que pessoalmente valorizo - não permite, por inerência, o mesmo grau de proficuidade na produção plástica. Por inerência, porque as solicitações de um doutoramento não são compatíveis com uma presença no atelier tão constante quanto tinha antes e quanto tenho (felizmente) hoje.

Isto para te dizer que... penso que nenhum doutoramento conduz a um esgotamento de uma investigação plástica (ou sequer conceptual).

No que é que estás a trabalhar agora? O confinamento alterou de algum modo a tua pesquisa atual? O confinamento é muito, muito duro.... É violento. Acho que é inevitável que esta experiência vá ter um grande impacto em todos nós, de modos muito diversos. Para mim é, neste momento, um desafio muito grande de conciliação de papéis: maternidade, prática artística, docência e direção da Duplex com tudo o que isso implica. Um caos, portanto... em alguns dias mais ou menos organizado...

Em boa verdade não tenho tempo para processar muitas das implicações do confinamento, enquanto ele decorre. Toda a minha energia está focada em chegar ao final do dia, com a sanidade possível, enquanto me sinto um animal enjaulado.

Acredito que o nível de agressão física, mental, e emocional a que esta situação nos sujeita possa, a seu tempo, redefinir aspetos da minha prática. Mas ainda não sei dizer quais... Ainda assim, surgiram boas oportunidades durante este período, muitas vezes criadas pela generosidade e empenho de outros artistas, como a residência digital que fiz com o Projeto Supersonic. Há um reforço de sentido de comunidade no contexto artístico que acho muito valioso. Quanto à primeira pergunta... no que estou a trabalhar agora... em alguns projetos coletivos que espero divulgar em breve e numa exposição individual que acontecerá na Duplex que tem como ponto de partida a vivência de insónias enquanto momentos originados por duas forças contrastantes: a aguda necessidade de dormir e um lancinante fracasso em conseguir fazê-lo.





1. Susana Rocha

"Breaths' Archive", 2012 - ...

Bolas insufláváeis, etiquetas e respirações

Dimensões variáveis


2. Susana Rocha

"That hole in the ground", 2019

MDF, tinta acrílica e veludo

200X60 cm


3. Susana Rocha

"Misfit #3", 2020

Ferro pintado

100 x 150 x 50 cm


* Esta entrevista foi realizada em Fevereiro de 2021. A DUPLEX | Artists in Residence e a Susana Rocha agradecem a generosa disponibilidade de Francisca Aires Mateus para a realização da presente entrevista.

Captura de ecrã 2019-09-07, às 13.36.47.