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Exposição | INTERCALATIONS [PARA AS MONTANHAS, ROCHAS E SOLOS, PARA OS LAMEIROS, MATOS E VACAS...]

07 de Julho a 28 de Julho de 2023

Vista da Exposição. Fotografia: Bruno Lopes



EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL:

Paula Koenig


TEXTO:

Johannes Munk e Paula Koenig


A artista adota o termo INTERCALATIONS [lat. intercalare: inserir no meio] de várias disciplinas: descreve camadas de rocha que se inserem entre segmentos de rocha já existentes, descreve processos químicos de iões de lítio numa bateria, ou, a inserção de uma outra narrativa na história já existente. Por exemplo, quando se proclama que a transição para mobilidade verde é "oficial" e que matérias primas estratégicas são "de grande importância", uma intercalação – outra camada – pode dar lugar ao conhecimento local.


À procura de novas visões para o futuro, a exposição dedica-se à coexistência dos habitantes do Barroso com o seu meio envolvente, bem como às estruturas que moldam a sua comunidade sob a forma dos baldios aos dias de hoje.


A instalação de vídeo Para o Barroso, para as montanhas, [...] constitui então o âmago da exposição: Ao ouvir e ver as imagens, os sons, o cântico e as palavras de Aida Fernandes, de Covas do Barroso, os entrelaçamentos de natureza-cultura da região desdobram-se diante de nós: os conhecimentos transgeracionais e a agricultura circular, os fornos de pão comunitários, a gestão coletiva dos baldios, a utilização da terra sem pesticidas e um sistema de irrigacção tradicional para a distribuição equitativa da água na comunidade. A ligação destas comunidades aos ciclos naturais reflecte-se na forma como tratam com cuidado o seu património agrícola e em estruturas claras de distribuição dos seus bens.


Ao mesmo tempo, chocam diferentes ideias de vida sustentável e visões de futuro: por um lado, a economia de conservação dos recursos, dos vales aos picos das montanhas, por outro, o interesse dos centros políticos e dos decisores, movidos pela grande fome do que se esconde por baixo dessas camadas de rocha: o lítio. Com o objetivo de explorar os recursos minerais para a transição de mobilidade nas periferias da Europa, a empresa britânica Savannah Resources quer abrir uma das maiores minas de lítio da Europa, utilizando mineração a céu aberto. Sem o envolvimento a longo prazo da população local, as montanhas de Covas, que são utilizadas pela comunidade, irão ser desbravadas, a água será retirada e os solos serão destruídos. E tudo isto sobretudo para manter o futuro de um modelo económico dependente de carros grandes, pesados e rápidos, que exigem grandes quantidades de matérias-primas.


Assim, a narrativa de Fernandes, acompanhada por animais e plantas, montanhas, águas e pedras, serpenteia pelo espaço expositivo e insere-se, como uma nova camada, entre as proclamações dominantes de uma suposta transição de mobilidade verde. Margaritifera margaritifera, o mexilhão pérola do rio, é apresentado em referência a uma ilustração enciclopédica anterior à industrialização. Até aí, era comum encontrá-lo nos rios da Europa. Com uma esperança de vida que pode chegar aos 270 anos, a sua memória é longa e ultrapassa várias gerações humanas. No seu ciclo de vida, o mexilhão do rio passa um ano nas guelras da truta-castanha até se enterrar no fundo do rio durante vários anos. Só então começa a filtrar e a limpar as águas do leito do rio. No local onde vive, a água é particularmente pura, mas o seu habitat tornou-se precário, uma vez que as atualmente as barragens bloqueiam o caminho da truta-castanha, os restos da agricultura industrial são arrastados pela água e os leitos dos rios são alterados pela intervenção humana. Como símbolo de um sistema natureza-cultura intacto, este junta-se a outras sensações, associações, vestígios e matérias da região do Barroso, enquanto as fotografias refletem a serra e a água sob a forma de cartazes de protesto, enquanto os vestígios esbatidos das flores recolhidas na área de exploração aparecem num painel de barro vermelho queimado, e uma pedra recorda o rochedo da serra que marca a partilha comunitária da água,


E, por fim, é a pintura Cosmic Biographies, bye, bye until 50,000 years from now, que guia o nosso olhar para a distância do cometa verde, que passou tão próximo da Terra na sua órbita, em fevereiro deste ano, pela primeira vez desde os Neandertais. De acordo com o último relatório do IPCC sobre o clima mundial, nós, como pequenos seres deste cosmos, não só vivemos muito além dos limites planetários no Norte global, como só podemos manter o nosso planeta habitável se forem adotadas políticas de decrescimento e de poupança de recursos. A exposição não tem como objetivo dar respostas, mas inserir intercalações: narrativas de natureza cósmica, geológica e biográfica que se encontram para celebrar a região do Barroso e estimular a nossa imaginação para uma vida sustentável com visões para o futuro.




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