Exposição | CONCHAL

13 de Maio a 03 de Junho de 2022

Vista da Exposição. Fotografia: Samuel Duarte



EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL:

Susana Amaral


TEXTO:

João Mateus



Um altar pressupõe reverência.

Tanto a montanha como o altar têm uma mesma forma em comum - uma forma de monte. Correlação não implica causalidade, mas não será irrelevante que muitas montanhas sejam consideradas sagradas. Mais importante do que o ato de sacralizar será a intenção que é direcionada para, e colocada sobre, uma determinada região topográfica. Despido de religiosidade, um altar é um monumento que cristaliza um tributo - uma homenagem, um agradecimento.

Se um altar religioso é erguido em nome de uma figura beatificada, um altar não - religioso será para xs inomeáveis, para xs orgâniexs e sintéticxs. Será certamente para xs informes, para xs inclassificáveis, esquecidxs, perifériexs, excedentes e para xs inprotagonizáveis - para quem também erguemos este monumento, este texto. Se o primeiro é singular, o segundo é coletivo. Se o primeiro é transcendente, o segundo é terreno.

Tanto o altar como o memorial partilham uma disposição comum que, independente de qualquer enquadramento religioso, admite uma partilha, dependência, mutualidade e uma reciprocidade entre pelo menos duas partes. A sacralização das montanhas, tal como a sacralização dos rios, presta respeito a uma entidade, que é sempre estratificada, sedimentada, múltipla, composta, e que me parece ter sempre implícita a admissão de uma aliança e bilateralidade. Num excerto que partilhei com a Susana do livro -Being No One. The Self-Model Theory of Subjectivity», Thomas Metzinger, particularmente preocupado com o que significa ter uma experiência consciente da realidade, refere-se à perceção temporal do agora como uma ilha que se ergue no meio de um rio.

Nesta metáfora este rio é a passagem do tempo, do passado em direção ao futuro, e a ilha é a nossa experiência subjetiva e fenomenológica individual do agora». A água envolve a ilha, passa em torno da ilha e atravessa a ilha. A ilha existe, mas é transparente. É parte do rio, mas distinta do rio. A ilha está na vez da experiência fenomenológica do sujeito subjetivo, e não será coincidência que a água delimite, contorne e possibilite a conceção de ilha. Heráclito, como Metzinger, também equacionava água com a passagem do tempo. Se para o primeiro podemos entrar e sair do rio, para o segundo, existimos dentro do rio enquanto formação rochosa. Esta diferença é significativa, e é até mais competente em dizer tudo o que eu alguma vez poderia tentar aqui dizer sobre este assunto. Este pequeno monumento honra uma realidade biótica, biocêntrica e heterárquica que, de algum modo, tal como a imagem do concheiro/conchal de ostras que anima esta exposição, subentende um entendimento transnacional e transgeracional - de tudo. As conchas, como a água e como as ostras, não se subordinam a fronteiras nacionais, enquadramentos legais, regimes jurídicos ou autoridades institucionais, mas sim a contaminação, coparticipação e assimilação. Um altar não pressupõe apenas reverência mas, acima de tudo, comunhão, cohabitação e conciliação.




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