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Exposição | O AMOR E A AMIZADE

24 de Fevereiro a 17 de Março de 2023

Vista da Exposição. Fotografia: Heron P. Nogueira



EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL:

Heron P. Nogueira


TEXTO:

Ana Grebler


Há cerca de dois anos, Heron e eu nos cruzamos numa rua estreita, atrás da estação de Santa Apolónia, ainda desconhecidos um para o outro. Este acontecimento foi reconhecido há um mês, quando começamos os encontros para falar sobre O amor e a amizade, esta exposição. Como muitas vezes no processo criativo, algo acontece, depois você percebe. Às vezes não entende, mas reconhece. Como revisitar um trabalho antigo que passa a fazer sentido anos depois. Algumas percepções só são acionadas a partir de um estímulo sensorial que nos transporta para uma consciência. Neste caso, foi passar pela mesma rua.

O acaso anima as mais pequenas partes do universo: o cintilar das estrelas é o seu poder, uma flor dos campos, seu encantamento. [1]

Heron pinta cometas [2], coisas que passam. Tem o olhar de quem sabe que é preciso estar atento ao que não é previsto. Suas proposições em pintura partem de estudos ou se tornam tarefas - flores, espelhos, espinhos. Existe método em sua prática, junto ao preparo da matéria. Séries desenvolvidas a partir de elementos que referenciam, influenciam e circulam entre elas. Pinceladas que evocam Volpi ou o Arco que vira Olho de Cobra. Na repetição e na transmutação do gesto e da forma, tensões criadas sobre superfícies envelhecidas apresentam sua obra como um organismo de forças invisíveis que a determinam [3].

Em O amor e a amizade Heron se propõe um desafio. A começar pela escolha da têmpera e a recusa às suas habituais cores fantasmas. Arriscar é tornar o caminho menos fácil, mas abrem-se outras janelas. Experimental e íntima, esta exposição é um encontro entre relações da sua produção artística e relações afetivas. A nostalgia, própria das ruas de Lisboa, acentua-se sob o olhar do Heron, que explora pela primeira vez a fotografia enquanto linguagem. Cenas cotidianas, lugares que passam e pessoas que ficam. Ou pessoas que passam e lugares que ficam. Entre um café e um cigarro, conversas sobre devoções da alma e nuvens do desconhecimento.

Como nas pinturas, figura e fundo podem se confundir entre ruídos analógicos e técnicas arcaicas. Expostos com as fotografias, os estudos saem do lugar de exercício, evidenciando o processo e o entrelace entre trabalho e afeto, indissociáveis no percurso sensível que envolve a exposição. Aplicada ao vidro da galeria, a paisagem bucólica de uma terra e tempo distantes, quando Heron acompanhava seu pai pelos caminhos do cerrado brasileiro. Entre as memórias que o tempo devora, O amor e a amizade trata de uma emoção vital [4], no sentido daquilo que nos atravessa e se torna determinante.

Estrelas na escuridão são ícones potentes. Como oráculos bíblicos. [5]



1 Bataille, Georges. O Pequeno. Sr Teste Edições, 2021. 2 Pintar cometas. Título da tese de mestrado do Heron, FBAUL, 2023 3 Deleuze, Gilles. Francis Bacon: Lógica da sensação. Orfeu Negro, 2011 4 Rolnik, Suely. Esferas da Insurreição. Sistema Solar, 2020 5 Prado, Adélia. Pensamentos à Janela; Tudo Que Existe Louvará. Assírio e Alvim, 2016



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